Quem é o Rufus? [1]

Rufus nasceu no ano 95 d.C. em Óstia, uma pequena mas importante cidade que ficava a cerca de 30 km de Roma. Era o porto de mar mais próximo da capital romana, e daí lhe vinha a importância. Era um lugar de passagem de todas as culturas, línguas, costumes e religiões. O pai de Rufus era comerciante, coisa normal para quem vivia numa cidade como aquela.

Por volta do ano 110, quando Rufus tinha 15 anos e já trabalhava com o pai, foram numa das suas inúmeras viagens a Roma levar mercadoria para vender por lá no mercado. Durante esses dias por lá falava-se, ainda que à boca pequena, de alguém que tinha vindo prisioneiro de Antioquia, na Pisídia, que ficava quase num dos extremos do Império. Era um prisioneiro especial, porque não era violento e não era condenado por rebelião ou crime. Era um líder de uma seita que tinha surgido uns anos antes entre os judeus e que, ao chegar a Antioquia se passara a chamar dos “cristãos”. Porque seguiam um tal Cristo que, na língua dos judeus significava “Ungido por Deus”.

Este preso de quem se falava no mercado chamava-se Inácio. Rufus não sabia se estava para chegar ou se já tinha chegado, mas estava a acontecer qualquer coisa… Uma vez, estando com o pai, deu-se conta que alguns comerciantes e pessoas que estavam no mercado começaram a conversar entre si sobre esse tal Inácio e depois, discretamente, saíram juntos. Rufus foi atrás. Viu-os entrarem numa casa simples que ficava nas traseiras da Via Aurelia e fecharem a porta. Ele chegou e sentou-se no chão, encostado à parede da casa mesmo por baixo das portadas de madeira velha da janela. Apesar de eles falarem baixo, ele podia daí ouvir tudo o que diziam…

Um deles tinha uma cópia de uma carta que esse Inácio vindo de Antioquia tinha escrito àqueles a quem chamava de “irmãos”, preparando a sua chegada. Começou a ler a carta para os outros, e Rufus nunca mais esqueceu as coisas que ouviu…

Marcou-o profundamente a maneira como aquele prisioneiro que vinha de tão longe falava do tal Cristo nessa carta e manifestava desejo de imitá-lo. Falava de Cristo como Rufus sempre ouvira os seus conterrâneos falarem dos seus deuses, mas, ao mesmo tempo, ao contrário de tudo o que já tinha ouvido! Queria pertencer-lhe, dizia ele aos tais “irmãos de Roma” a quem dirigia a carta, queria “ser de Cristo”, e estava contente por poder sê-lo através do testemunho da morte pública no Coliseu da capital do Império.

Perdeu a noção do tempo enquanto ali agachado os escutava a ler e a comentar a carta. Já estava a ficar escuro quando acabaram e Rufus percebeu que iam sair de casa. Como que acordou com o arrastar dos bancos em que eles estavam sentados e ainda que quisesse levantar-se num salto não podia porque tinha as pernas dormentes. Foi a custo que se ergueu e voltou para o mercado onde o pai, já com a mercadoria arrumada esperava por ele impaciente. Roma podia ser uma cidade muito perigosa para um rapazinho como aquele.

Ficaram na cidade apenas mais um dia, o negócio tinha corrido bem, e voltaram para Óstia.
Aquela tarde nunca mais saiu da memória do jovem Rufus…

Cresceu e passados poucos anos já era ele quem tomava conta do negócio do pai. Um dia, negociando no porto de Óstia conheceu alguém que era de Antioquia. Imediatamente se lembrou daquela tarde em Roma uns anos antes e perguntou-lhe se tinha conhecido Inácio. O antioqueno, que se chamava Tito, confirmou que não estava mais ninguém a prestar atenção à conversa e disse-lhe que sim, que o tinha conhecido muito bem, que o amava de verdade, e perguntou a Rufus: “Também és de Cristo?”

Quem é o Rufus? [2]

Um dia, negociando no porto de Óstia conheceu alguém que era de Antioquia. Imediatamente se lembrou daquela tarde em Roma uns anos antes e perguntou-lhe se tinha conhecido Inácio. O antioqueno, que se chamava Tito, confirmou que não estava mais ninguém a prestar atenção à conversa e disse-lhe que sim, que o tinha conhecido muito bem, que o amava de verdade, e perguntou a Rufus: “Também és de Cristo?”

Ele, sem saber muito bem o que isso queria dizer mas lembrando-se ainda das palavras de Inácio naquela carta disse que sim! Foi o começo…

Quando, nessa noite, se juntaram um bocado para conversar e partilhar experiências, Tito percebeu logo que Rufus não era cristão. Meio assustado ao princípio, perguntou-lhe porque tinha mentido, mas a curiosidade e a verdade do Rufus fizeram-no perceber que não havia nada de que ter medo. Começou a falar-lhe de Inácio, dos irmãos de Antioquia que se chamavam “cristãos”, de Paulo de Tarso que tinha andado também por lá umas décadas antes, e de Jesus a quem chamavam Cristo…

Rufus tinha cerca de 20 anos e, de repente, aquela tarde de quando tinha 15 ganhara dentro de si uma dimensão que não podia esperar… Passados três dias, chegada a vigília do primeiro dia da semana, Rufus ficou a saber que ali mesmo em Óstia, afinal, havia uma comunidade que se reunia em nome de Jesus, esse a quem chamavam Cristo e Senhor. Depois de falar com os responsáveis, Tito levou-o consigo para escutar o Testemunho dos Apóstolos…

A maior parte eram escravos do porto, gente pobre e de vida dura, mas havia também vários comerciantes que ele conhecia e que, ao vê-lo, sentiram um misto de admiração e susto. Com uma saudação tímida mas alegre, Rufus serenou-os todos e sentou-se num canto.

A meio da noite, foi convidado a sair, juntamente com um grupo a quem chamavam catecúmenos e a quem o responsável da comunidade impôs as mãos antes de os enviar. Eles foram para outro lugar, ali muito perto, e Rufus voltou para casa.

Foi assim durante umas semanas, enquanto Tito esteve por ali. Mas o destino de Tito era Roma. E Rufus fez as malas e seguiu com ele para a capital. Convenceu os pais que ia à procura de melhorar os negócios, de fazer por uma vida melhor, e seguiu com Tito.

Conheceu com ele a comunidade de Roma, e reconheceu nela algumas vozes daquelas que tinha escutado longamente há cinco anos atrás… Passado pouco tempo, entrou na ordem dos Catecúmenos e recebeu o Baptismo dois anos depois. Vivia de um pequeno negócio no mercado com aquilo que mandava vir ou ia buscar a Óstia, sobretudo tendas, lonas e material em cabedal e pele.

Pela maneira como a fé se exprimia nele, como saboreava o gesto salvador de Deus em Jesus Cristo e como partilhava a Palavra de Deus com palavras simples e inspiradas, a comunidade não tardou a pedir-lhe que fosse catequista de catecúmenos. Entretanto, pelo Carisma que todos reconheciam nele de anunciar a Palavra de Deus, confiaram-lhe o Ministério de Profeta, que eram aqueles que proclamavam a Palavra, a explicavam e louvavam a Deus orando longamente e glorificando-o pelos Seus dons.

E o Espírito não o largava, até que começou a sentir-se chamado a mais… a ir mais longe, como Tito um dia tinha ido até Óstia e depois até Roma…

Quando lhe chegou às mãos uma carta que o apóstolo Paulo tinha escrito para a sua comunidade cerca de 60 anos antes, o seu coração tremeu ao ler este desejo do Apóstolo: “Agora, como não tenho muito campo de acção nestas regiões, passarei por aí para ver-vos, já que há tantos anos ando com desejo de ir ter convosco, a caminho da minha viagem para a Hyspania”… (Rom 15, 24)

Era isto… Rufus sentiu de novo o mesmo desejo, como que querendo continuar a viagem inacabada do apóstolo para se tornar, ele mesmo, um apóstolo. Partilhou-o pouco tempo depois com a sua comunidade que se alegrou e deu graças a Deus com ele. Mais dois companheiros se lhe juntaram, Crescente, um jovem de Roma filho já de pais cristãos, e Yonathan, um irmão judeu que tinha vindo de Alexandria. No dia marcado, a comunidade impôs-lhes as mãos, como quem lhes confiava um testemunho ou um tesouro e enviou-os para o anúncio do Evangelho.

Dirigiram-se para Óstia, a cidade de Rufus, para arranjarem um barco que os levasse até à Hyspania, na outra ponta do Império Romano. Tiveram que esperar ainda umas semanas. Voltando a casa, Rufus voltou também às memórias… Tinha, na altura, 35 anos.

Foi nesses dias, antes de partir, que ele escreveu, a pedido dos irmãos de Óstia, a memória agradecida da sua Fé, o testemunho de como Jesus o tinha encontrado, como a tantos outros antes dele, para lhe propor um desafio de Vida Nova que ele não estaria à espera de merecer…

E não merecia… tinha-lhe sido dado.

A memória agradecida da minha Fé [1]

Foi aqui neste lugar que há cerca de 15 anos pus a cabeça entre as mãos sem saber o que havia de fazer, com os cotovelos fixos no tampo desta mesa antiga que o meu pai usa para fazer as contas da mercadoria: ir para Roma com Tito ou ficar-me por aqui…

Sem ter as certezas todas na mão, mas com uma curiosidade maior que tudo, fui. Ainda levava comigo o eco daquela carta do Inácio de Antioquia aos irmãos de Roma que tinha escutado por lá à socapa cinco anos antes, e tudo tinha verdadeiramente crescido naquela meia dúzia de vezes em que fui com o Tito à reunião dos irmãos aqui em Óstia. Na altura saía com os catecúmenos, depois dos Salmos, dos Escritos dos Profetas, do Testemunho dos Apóstolos e da oração dos irmãos. Mal sabia eu que um dia viria a fazer parte de tudo isso…

Voltei a Óstia agora, e de novo para partir. Nasci aqui, nesta cidade que é o porto de Roma, e tenho a sua sorte escrita nos meus dias: chegar e partir… Ainda faltam uns dias até que um barco nos leve até à Hispânia, para onde eu sinto que o Espírito me empurra e para onde a minha comunidade me enviou. A Hispânia representa para mim a viagem inacabada do Apóstolo Paulo, a continuidade permanente da Missão.

Quando cheguei, os irmãos de Óstia vieram saudar-me, juntamente com o Crescente e o Yonathan que eles não conheciam ainda. Conversámos de muitas coisas e foi no meio de umas quantas memórias destes últimos anos que eles me pediram que aproveitasse este tempo de espera para lhes escrever uma espécie de Memória da minha Fé. Sento-me aqui e dou-me conta que não precisavam de ter pedido… voltar a este lugar, assim, faz passar diante dos meus olhos uma multidão de rostos e acontecimentos.

É admirável a multidão de pessoas que faz parte da minha história de Fé. Não é uma história que se constrói “a dois”, entre mim e o meu Senhor Ressuscitado. A história da minha Fé é a memória de uma multidão. São muitas pessoas… momentos… palavras… sentimentos… cheiros, até…

Desde aquele dia, com 15 anos, levado pela curiosidade lá em Roma de saber quem era o tal “Inácio” de quem se falava, preso em Antioquia e trazido até à capital do Império… Ainda me lembro do cheiro daquelas ruas que percorri atrás daqueles que depois vim a reencontrar como meus irmãos uns anos mais tarde, ainda parece que sinto as pernas totalmente dormentes de tanto tempo encolhido debaixo da janela e nunca mais esqueci o impacto das palavras que os ouvia lerem da cópia daquela carta que um deles tinha. Cinco anos depois, quando conheci a comunidade com o Tito, reconheci ainda aquela voz mal me saudou: chamava-se Tralus e era um dos presbíteros da comunidade. Reconheci a Priscilla, mulher dele, de quem me lembrava do mercado. Vendia perfumes e essências, e algumas vezes tinha sido o meu pai a trazer-lhas de Óstia. Quando eu comecei o catecumenado, ela ofereceu-me um pequeno frasco com uma essência cor de ouro. Perguntei-lhe o que era e disse-me que era nardo. Fiquei à espera que me explicasse mais alguma coisa, mas apenas me apertou as mãos e disse: “Um dia vais perceber…”

E tinha razão, já percebi. Foi algum tempo depois do meu Baptismo quando, numa vigília do primeiro dia da semana, escutávamos a memória dos Apóstolos que alguns dos nossos irmãos de outras comunidades entretanto tinham redigido em forma de narração, como quem contava pausadamente uma Boa Notícia. Aí escutei a memória daquele dia em que Jesus estava sentado à mesa e uma mulher se aproximou para derramar nele um frasco de nardo puro, tendo toda a casa ficado cheia do seu aroma…

Percorro a memória da minha Fé e sinto-me profundamente habitado e visitado por pessoas. O rosto de Deus escreve-se na minha vida com os traços concretos de gente comum, gente minha, gente que me conhece e faz parte de mim. A minha Fé é também a história de uma Amizade que fui encontrando no contacto progressivo com os irmãos. O Amor e o Carinho desta Amizade tornou-se para mim uma mediação privilegiada da Revelação de Deus, do Seu Cuidado para comigo, do Seu jeito de Se fazer presente…

A memória agradecida da minha Fé [2]

Aqui em Óstia estava habituado a encontrar todo o tipo de divindades e notícias religiosas… ao porto do grande Império chegavam todas as culturas. Mas o que experimento hoje não é o conhecimento de uma nova divindade. Não foi uma nova divindade que descobri, mas uma comunhão de pessoas que me abriram a uma experiência profunda de Pertença ao Mistério Pessoal que nos reunia.

Era em nome de Jesus que nos juntávamos sempre, não como “crentes” mas como membros seus, formando com ele um Corpo só. Por isso, sentíamo-nos também pertença da comunhão que Deus vivia com ele, relação entre um Pai e um Filho, como quem se sente envolvido num Amor, numa Graça, numa Vitalidade e numa Esperança mais forte que tudo. Quando duas pessoas se amam muito e estão entre nós, sentimos que a sua cumplicidade, o seu amor, o seu afecto criam como que um ambiente à sua volta, um ambiente que envolve todos os que estão próximos. Foi assim que o Simão me falou uma vez do Espírito Santo durante o meu catecumenado, como este ambiente de Vida gerado pela comunhão do Pai com o Filho que envolve toda a Criação e a recria… Antes disso, já outras vezes me tinha falado do Espírito de Deus como Paráclito, defensor, consolador, acção vitoriosa e poder de Deus.

Lembro-me das mais pequenas coisas, de gestos, de pequenas palavras, de momentos simples… Hoje, nada disso é insignificante. O que nos toca nunca é insignificante, ainda que seja pequeno, discreto ou pareça fugaz… Não sei se faço um exercício de Memória ou um exercício de Gratidão, porque é esse o sentimento que mais profundamente me invade nesta hora.

Leio assim a presença de Deus na minha história, conhecendo cada recanto da minha vida, e percebo tão claramente, agora, o cuidado de Jesus comigo, o seu trato de Mestre em tantos momentos da minha vida, as minúcias do seu carinho para comigo, seu Discípulo, através de tantos “nadas”, através de tantos irmãos ou no meio de acontecimentos muito inesperados…

À medida que vou deixando a minha memória correr livre à minha frente, sinto uma paz e uma alegria dentro de mim que me dão uma serenidade que quereria sentir sempre. Aqueles medos e ansiedades desta viagem até à Hispânia num momento desapareceram… As perguntas que tantas vezes ainda me aparecem “Será que é mesmo para ir? Não serão coisas da minha cabeça? Valerá a pena o esforço? O que irá acontecer?” esfumam-se como vento, não vencidas por nenhuma espécie de respostas mas vencidas pela Confiança, vencidas por esta experiência tão profunda de Companhia, de Consolação, de Lucidez em que a minha Memória se torna para mim um santuário, um lugar de face-a-face com Deus, um lugar existencial em que Jesus tem encontro marcado comigo…

Ao fazer a Memória agradecida da minha Fé e da minha Vida, percebo que não tenho motivos para ter medo de nada! Dou-me de caras com a Ternura permanente de Deus, com a Força e Consolação do Seu Espírito, bem mais presente do que às vezes parece, e dou-me também de caras comigo mesmo, bem mais forte do que algumas vezes me julgo. Parece que renovo algumas das experiências dos meus primeiros tempos, em que a notícia da Páscoa de Jesus e o testemunho dos seus Apóstolos provocavam em mim um enamoramento único, um entusiasmo e uma paixão que me faziam crescer ao tamanho do mundo num fogo qualquer dentro de mim e, ao mesmo tempo, parecia que me faziam desaparecer no meio dele!

Pensei que os trilhos da minha memória me iam conduzir aos lugares do meu passado mas, afinal, conduzem-me ao Presente permanente de Deus. A minha história não é passado, é presente! É o que eu sou, e Deus está comigo. Experimentar que Deus esteve comigo na minha história é o mesmo que dizer que Deus está comigo hoje, aqui e agora, porque a minha história sou eu mesmo!

Na Memória Agradecida da minha Fé experimento que aquele que esteve comigo daquela maneira, por me amar, é o mesmo que continua a estar comigo hoje, porque não deixou de me amar. E isto torna-se encantador…

A memória agradecida da minha Fé [3]


Agora percebi o que me dizia o Yonathan enquanto vínhamos de Roma para cá. Agora percebi… Gosto muito de conversar com ele e de o escutar, porque ele é judeu e olha para muitas coisas de maneira diferente… Umas das coisas que ele já muitas vezes tinha dito e eu nunca tinha percebido muito bem era que nós éramos um povo sem grande jeito para fazer Memória. Às vezes dizia isto lá na comunidade, falava da importância de ter uma Boa Memória, e pedia-o muitas vezes em oração a Jesus. Na viagem para aqui, pedi-lhe que me explicasse melhor, e ele falou-me da experiência de Fé do seu Povo.

O grande acontecimento de Israel tinha sido a Eleição por parte de Deus dos escravos no Egipto para formar com eles um povo. O grande acontecimento da história de Israel tinha sido uma intervenção gratuita de Deus, impossível aos escravos. Uma Graça, uma Iniciativa de Outro… a Fé era o Caminho de resposta a esta iniciativa de Deus, uma resposta que se fazia permanentemente de Memória e Fidelidade. A Memória era a maneira de esse povo liberto da escravidão manter acesa a chama da Esperança e da Fidelidade do Deus Presente. Chamavam-lhe “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” ou “Deus dos nossos pais”, uma maneira bonita de dizer Deus da nossa História, Deus Connosco, Deus que faz caminho com os Seus, Deus de Sempre e para Sempre!

A transmissão da Fé no seu povo era feita como quem conta a sua própria história, a história dos seus pais, dos seus avós, da sua infância, do seu país… A Memória começou a gerar rituais e gestos cheios de significado. O princípio do Culto em Israel era profundamente Memorial, um acto de gratidão e renovação do gesto libertador de Deus para com o Seu povo. Por isso, estes sinais rituais eram ensinados assim: “Quando fizeres isto, lembra-te que…” e evocava-se algum acontecimento da história.

Explicou-me o Yonathan que as catequeses do seu povo acontecem sempre como um desembrulhar das memórias de todos. Começam muitas vezes assim: “Recorda-te, oh Israel, que…” O Deus de Israel, que é o Deus Pai de Jesus, é aquele que faz maravilhas. Quando se cantam as maravilhas que Ele fez com os antepassados, não se glorifica o passado mas proclama-se o Poder do Amor de Deus que não fica enterrado em nenhuma era antiga. É Deus mesmo quem é exaltado, nele se coloca a confiança.

Quando Israel caía na Infidelidade era porque esquecia o significado profundo e o segredo da sua história… então, Deus suscitava os Profetas! Os olhos do Yonathan brilhavam quando falava deles… Dizia que eles eram a Memória Viva do seu povo, a voz da trombeta que desperta os adormecidos. Eles proclamavam a Fidelidade de Deus e a Sua Vontade fazendo memória de tudo quanto Ele já tinha feito pelo Seu povo! Era um Deus de Vivos, não de mortos, e estava disposto a fazer tudo de novo, a agir com o Poder do Seu Amor para renovar as Suas maravilhas entre o povo de Israel. Mas muitos não davam ouvidos aos Profetas… porque isso implicaria Confiar e Esperar o que, segundo a lógica deste mundo, é arriscado demais para ser levado a sério quando estão em causa coisas grandes.

Sem Memória não há Esperança, nem há Confiança… se Deus faz parte da nossa história, então a nossa Memória é um ponto-de-encontro com Ele! Enquanto o Yonathan explicava tudo isto da cultura do seu povo e ia contando exemplos de Profetas e acontecimentos de Israel, o Crescente entrou também na conversa para dizer que assim mesmo tinha sido com a experiência pascal dos primeiros discípulos quando começaram a perceber que Jesus estava com eles de uma maneira nova. Os pais do Crescente tinham conhecido vários Apóstolos dele, daquele grupo da Galileia, quando eles depois passavam nas comunidades a dar o seu testemunho. Nessas longas noites em que se reuniam, os Apóstolos faziam a memória do Mestre à luz da sua ressurreição e como eles a tinham começado a experimentar.

O Crescente lembrava-se bem que os pais lhe contavam que quando um Apóstolo fazia com eles a memória do Mestre, depois de contar que ele tinha falado assim ou feito assado, concluía sempre que Deus o tinha ressuscitado e, por isso, Jesus continuava com eles a dizer e a fazer como antes! Fazer a Memória de como o Mestre tinha estado com eles na Galileia e em Jerusalém tornara-se a chave de leitura para compreender como é que o Mestre, agora Ressuscitado, continuava com eles.

Pela experiência pascal foram descobrindo Jesus como o eterno Presente de Deus connosco, mas pela Memória histórica é que percebiam qual era o jeito desta Presença…

“Ele está vivo e connosco!” gritavam eles desde a primeira manhã de Páscoa. Sim, mas como? “Assim, como nos lembramos e vos contamos… Este era o seu jeito de estar connosco e com todos. Este continua a ser o seu jeito de estar connosco e com todos, mas agora transfigurado no Espírito de Deus, glorificado e confirmado por Deus como um Pai partilha com o seu Filho tudo o que lhe pertence.”

A memória agradecida da minha Fé [4]

Ainda nós não tínhamos nascido, eram os pais do Crescente ainda jovens, quando começou a surgir um problema que eles lhe tinham contado: as comunidades eram cada vez mais e distantes umas das outras e os Apóstolos estavam a ficar velhos. Nalguns lugares já a Fé das comunidades se ia como que inventando, pela falta de Memória… Jesus já tinha deixado de ser aquele da Galileia, o Crucificado que Deus tinha Ressuscitado no Seu Poder e Fidelidade, e falava-se dele como se fosse uma divindade de um povo grego qualquer, como aquelas que eu tinha por aqui conhecido em Óstia na minha juventude. Então, surgiu a necessidade de ir pondo por escrito de maneira bem elaborada estes testemunhos, para que não se perdesse a nascente da Memória da nossa Fé no Deus que ressuscitou Jesus, aquele Jesus da Galileia com quem os Apóstolos tinham convivido.

Ao testemunharem as suas experiências da presença entre eles de Jesus Ressuscitado, fazem-no sempre em forma de catequeses. Não dizem “como foi” ou “como aconteceu”, porque isso não cabe dentro da nossa capacidade de ver ou entender dessa maneira… Testemunham como o experimentaram eles, o que significou esse acontecimento no concreto das suas vidas, como lhes tocou. Porque eram para ser utilizados nas comunidades, esses testemunhos foram sempre escritos em forma de catequeses que nós, nas nossas vigílias do primeiro dia da semana, aprofundávamos juntos.

Estas catequeses pascais têm algumas coisas muito parecidas umas com as outras… Os discípulos do Mestre estavam tristes, chorosos, amedrontados, desiludidos. Tudo parecia ter acabado. E Jesus saiu ao seu encontro, pôs-se no meio deles. Mas, transfigurado no Espírito de Deus, já não era evidente a sua presença para ninguém. Não o reconheciam… Então, Jesus mesmo sempre fazia alguma coisa que já tivesse feito antes com eles… provocava-lhes a memória, aquela memória relacional que construímos na amizade… e eles reconheciam-no! Reconheciam-no sempre quando acontecia alguma coisa que os fazia recordar o Mestre antes da sua morte. “É ele!” gritavam então…

Dois deles, que o pai do Crescente tinha conhecido, o Cleofas e o Barlahem, tinham feito esta experiência enquanto pelo caminho de volta à sua terra liam a vida e a morte de Jesus à luz das Escrituras do seu povo, fazendo Memória do Deus de Israel e do Seu jeito de estar e agir connosco… depois, tudo se tornou claro para eles quando, ao fim do dia, repetiram o gesto que o mesmo Jesus lhes tinha pedido que fizessem: partir o pão como discípulos do Reino de Deus. Abriram-se os seus corações à presença de Jesus, Vivo afinal, numa Vida que só Deus lhe podia dar, e voltaram de novo para Jerusalém.

Nesse regresso cheio de entusiasmo, conversavam entre si sobre aquele “arder no coração” que ambos iam sentindo antes pelo caminho, enquanto faziam Memória do Messias e do Deus das Escrituras… “Alguém te fez arder assim o coração algum dia como ele?”, perguntou o Cleofas. “Ninguém”, disse o Barlahem “É ele! É ele! Continua connosco…”

Eu lembrava-me também do testemunho de Maria, a de Magdala, que o reconheceu presente na maneira única como o Mestre dizia o seu nome. Ela bem sabia… essa maneira de dizer o seu nome já a tinha libertado profundamente antes. Os Apóstolos lembravam-na como aquela que tinha estado “possuída por sete demónios” e a quem Jesus tinha curado… o que é que isto significava, não sabemos, mas foi na memória de como o Mestre dizia o seu nome que ela fez a experiência da sua presença com ela…

Era sempre assim que os Apóstolos transmitiam o seu testemunho daqueles primeiros tempos em que Jesus lhes ia dando sinais de que estava com eles. Estas Provocações à Memória dos seus Discípulos eram a maneira de Jesus lhes dizer que continuava com eles, realizando com eles o mesmo caminho e missão, mas agora definitivamente confirmada e glorificada pelo Pai! Faziam Memória das suas refeições com ele, quando se sentavam à mesa e conversavam, e foi nesse contexto também que o experimentaram Vivo entre eles muitas vezes… assim no-lo contaram.

A memória agradecida da minha Fé [5]

“Foi este Jesus que Deus Ressuscitou”, ESTE, sublinhavam eles… Este, que guardavam no mais fundo da sua própria história, no mais vivo da sua memória. Eles foram transmitindo estas experiências a outros, e esses a outros, e esses a outros… até que todo este tesouro chegou até mim como uma Boa Notícia cheia de Vitalidade! Até mim… aqui em Óstia, à espera de partir para a Hispânia com este tesouro entre mãos. Transportamos um tesouro precioso em vasos frágeis e toscos, como os de barro, mas não podemos deixar de o fazer.

É um dom… dizia Jesus aos primeiros, como me disse também a mim há uns dias através da boca da minha comunidade: “Recebeste de Graça! Dá de Graça…”

Move-me a Gratidão pela multidão de pessoas que fazem parte da história da minha Fé. Tantas até a quem eu nunca conheci o rosto. E outras, tantas, com rosto e nome na minha vida… Sinto um Encanto profundo por este Mistério do Deus que tem encontro marcado comigo no exercício vivo da minha Memória, na descoberta de que o Deus da minha história é um Deus Presente, comigo…

O Yonathan tinha razão… nós não somos muito dados a este exercício de Memória. Mas a Memória lúcida e agradecida da Fé torna tudo presente, enche a vida de força e o futuro de Esperança! Porque o Deus de Israel que fez maravilhas em favor do Seu Povo, o Deus de Jesus que o ressuscitou dos mortos, é o Deus que está aqui, hoje, comigo, disposto a fazer tudo de novo, porque não está velho, nem cansado nem deixou de nos amar!


Com Amizade,
Rufus

Uma Notícia espantosa de Salvação [1]

Desde a minha infância me tinha habituado a ouvir cada um falar dos seus deuses… Aqui a Óstia chegavam barcos de todo o lado, com gente de todo o tipo. Muitos grupos se formavam no porto e na via que dava para o interior da cidade, já em direcção a Roma, quando chegava a hora de descansar ou esperar pelo próximo carregamento. Aí ouvia-se muita coisa.

Os que eu mais gostava de ouvir eram os gregos, porque eram capazes de estar uma noite inteira a contar histórias dos deuses deles cheias de peripécias engraçadas e grandes aventuras. Tudo acontecia lá no mundo dos deuses deles, o Olimpo, onde vivia uma multidão incontável de deuses, uns mais importantes que outros, semi-deuses e ninfas, que não eram uma coisa nem outra e eram assim… sei lá, ninfas! Criadas pelos deuses quase sempre para se divertirem às escondidas das deuses, mulheres deles… Bem, uma grande confusão, com guerras, disputas do poder divino, adultérios, vinganças, figuras curiosas. Eu adorava as histórias deles sobre o que os deuses faziam e como viviam lá entre eles.

Outros, de outros povos, falavam de outros deuses e de outras maneiras… Ninguém tinha tantas histórias como os gregos, mas também as havia engraçadas. Eu era miúdo e adorava tudo isto. Contavam histórias incríveis também de antepassados seus que tinham feito coisas extraordinárias em nome dos seus deuses, ou para lhe prestar honra ou para lhes permanecerem fiéis. Aquilo que todos deviam fazer pelos deuses e em nome deles, tinham-no feito esses homens de uma maneira extraordinária. Estes também contavam às vezes umas histórias interessantes, mas não davam para rir como muitas dos gregos…

Os mais chatos de todos, quase sempre, eram os judeus. Havia alguns deles que nem se juntavam connosco… arranjavam desculpas, mas toda a gente sabia que era para estarem só entre eles. Outras vezes, quando se lhes perguntava, diziam pouco mais que “Temos uma Lei” que isto e que aquilo… Eu pensava que eles eram chatos. Mas não… Lembro-me muito bem de um dia ter chegado cá um que eu adorei. Adorava ouvi-lo…

Ele ia para Roma, e parou aqui uns dias. Chamava-se Eleazar e os outros judeus tratavam-no por Rabi. Ele não tinha problemas em estar com todos, connosco, petiscando, bebendo vinho do mediterrâneo, ouvindo e contando histórias, mas todos percebíamos que havia uns quantos judeus que não achavam piada nenhuma a isto. Nem lhe falavam depois, alguns deles… Mas ele não se importava com isso. E, acima de tudo, adorava também contar histórias…

Acreditava num só Deus e não em muitos, como sempre tinha ouvido. Chamava-lhe “Adonai” que em hebraico quer dizer “Senhor”. E hoje dou-me conta de como as suas histórias me marcaram… por dois motivos: primeiro, porque as histórias de Deus eram, no fundo, a história do seu povo; segundo, porque eram as histórias do que Deus tinha feito por eles sempre…

As histórias que ele contava não aconteciam no mundo dos deuses, como as dos gregos… No fundo, nem eram muitas histórias, como as deles, mas muitos momentos e situações de uma história só. E que, ainda por cima, era ao mesmo tempo história de Deus e história do seu povo! Nunca tinha ouvido nada assim… Um Deus que fazia História com as pessoas, que tinha História…

Depois, tudo o que ele contava não eram coisas que deuses faziam entre eles, nem coisas extraordinárias que alguém tinha feito pelos deuses. Eu ficava admirado… mas ele falava sempre das coisas admiráveis, das acções espantosas que Deus tinha feito pelas pessoas do seu povo! Ele usava muitas vezes a palavra “Aliança”, e era a primeira vez que eu ouvia essa palavra para falar da relação de Deus com pessoas. Sempre que tinham falado disso, sobretudo os gregos, eram Alianças que os deuses faziam entre eles, para irem para a luta contra outros deuses, por exemplo… Agora, uma Aliança de um Deus com um povo, com pessoas como eu?! Não com um ou outro especiais, mas com todas as pessoas, assim, normais, como eu… Desta nunca tinha ouvido falar.

Estas histórias do velho Rabi Eleazar eram diferentes de todas as outras… Eram boas, eu gostava delas! E eram muito diferentes… Um Deus que fazia coisas extraordinárias em favor de pessoas como eu…

Hoje sorrio ao lembrar isto, porque acredito que este Deus de Israel, o Adonai do Rabi Eleazar, é o Deus que Ressuscitou Jesus e no qual eu confio a minha vida. Ele é assim mesmo, como ouvi falar dele nessas noites de histórias bem contadas: um Deus bom, cheio de Poder e de Amor, o que o torna fonte de Vida e Futuro nas suas acções em favor de nós. De nós, todos… porque o que o Rabi Eleazar dizia do Amor do Adonai pelo seu povo Israel, é o que eu digo hoje do Seu Amor pelas pessoas de todos os povos, raças, línguas e nações.

Foram as duas coisas que mais me tocaram quando, há quinze anos, comecei a ir com o Tito à reunião da comunidade aqui em Óstia: a proclamação permanente do que Deus tinha feito por nós, e o alcance universal desta acção.

Uma Notícia espantosa de Salvação [2]

Foram as duas coisas que mais me tocaram quando, há quinze anos, comecei a ir com o Tito à reunião da comunidade aqui em Óstia: a proclamação permanente do que Deus tinha feito por nós, e o alcance universal desta acção.

Quando os escutava falar, ler o Testemunho dos Apóstolos ou alguma carta que andasse a circular, quando os escutava rezarem ou interpretarem o que chamavam “Mistério escondido antes e agora revelado em Jesus, o Cristo”, dava-me conta que a palavra que mais usavam era “Salvação”. Era tudo novo, ao princípio, mas percebia que estava diante de uma Boa Notícia espantosa de Salvação, se aquilo fosse verdade… Lembro-me de estar na comunidade com eles e pensar dentro de mim “Se isto é verdade, muda tudo! Se isto for mesmo verdade, o que eles dizem que Deus fez em Jesus, então nada fica igual, não só na minha vida mas na vida de todas as pessoas!”

Escutar, como eu os escutava, que Deus tinha ressuscitado Jesus de Nazaré significava descobrir que no mais íntimo do mundo e da história que vivemos há uma Presença que muda o rumo das coisas… e perceber isto - tornava-se claro para mim - mudava imediatamente o rumo das minhas coisas, dos meus projectos, da minha maneira de sonhar e construir a minha própria vida. Não é possível acreditar que Deus ressuscitou um irmão nosso da morte e achar que tudo pode permanecer igual…

Esta notícia continua hoje a emocionar-me por dentro e acredito inteiramente que Deus confirmou a missão de Jesus, o exaltou à Sua direita como verdadeiro, glorificou a sua fidelidade e deu um alcance universal e eterno aos seus gestos não deixando que nenhum se perdesse na dormência da morte mas vivificando-os todos de novo com a força inesgotável do Espírito Santo.

Todos os seus gestos continuam activos…
Todas as suas palavras continuam eficazes…
Todas as suas opções continuam válidas…
Ele mesmo continua connosco, encabeçando uma Nova Humanidade que nasce dele, levando a dianteira do Reino de Deus a acontecer entre nós e assegurando-nos que o pecado que gera a violência, a injustiça, a opressão e a indiferença não tem a última palavra no destino da vida.

Os testemunhos dos primeiros eram um autêntico milagre só pelo facto de terem existido… Todos sabíamos nas comunidades que os primeiros morreram na morte do Mestre, ficaram fechados, isolados e sem futuro para além da repetição de um passado que pensavam ter deixado para sempre… E foi no meio disto que aconteceu alguma coisa que mudou tudo. O milagre pascal da mudança dos discípulos de Jesus foi algo que sempre me desconcertou… Saíram para a praça pública, dias depois de terem acabado com Jesus, proclamando que Deus tinha tomado partido por ele e o tinha Re-Suscitado para uma Vida Sua, cheia do Espírito, intocável por qualquer poder do mundo porque existe muito acima de qualquer um. Afinal, o que foi morto como blasfemo e maldito é Senhor da história, e aqueles que o mataram não. Quem o diz? Deus mesmo!

“E nós somos testemunhas destas coisas”… Era isto que diziam! Ao princípio ainda não tinham sequer encontrado tempo para reflectir e procurar outros argumentos… No fogo do Espírito que os apanhou, gritavam que eram testemunhas disso, que o Mestre se tinha de novo encontrado com eles, os tinha reunido em torno de si e lhes tinha dado a Missão de o anunciarem e o Espírito, como Defensor, para o fazerem. Mesmo ameaçados e maltratados, ao princípio, desobedeciam às autoridades judaicas mesmo debaixo das suas barbas dizendo que tinham que obedecer primeiro a Deus que aos homens…

Os judeus eram quase viciados em “Messias”… Muito antes de Jesus já tinha havido vários, e depois dele continuou ainda a haver por mais umas décadas, até que há cerca de 50 os soldados do Império foram lá a Jerusalém e arrasaram aquilo tudo para que as rebeliões acabassem de vez…

Eu ouvi falar pelo testemunho dos Apóstolos num tal de Teudas, também da Galileia como Jesus, e num outro chamado Judas. Eram líderes de movimentos libertadores do seu povo em relação ao nosso Império, e quase sempre numa linha violenta. Aqueles que os seguiam, consideravam-nos o Messias que se esperava, o Ungido de Deus. E acontecia sempre a mesma coisa: quando começavam a dar problemas, os líderes eram apanhados, com os principais, e eram executados. A seguir, havia duas hipóteses para os seguidores: ou se dispersavam e acabava tudo, ou arranjavam um novo Messias…

Mas, com estes que seguiam o “Messias Jesus” não aconteceu nenhuma das duas. Começaram a dizer uma coisa espantosa, nunca ouvida em relação a ninguém: “É ele mesmo o Messias, ainda que o tenham morto. A prova é que Deus mesmo o levantou da morte que lhe impuseram.”

Não estava em causa uma minúcia de interpretação da Lei judaica nem uma nova perspectiva espiritual… era anunciada uma poderosa e nunca vista acção de Deus! Deus tinha começado qualquer coisa nova e grandiosa naquele homem, no exacto momento em que todos pensavam que a morte tinha acabado com ele. Esta Notícia causa riso ou espanto… gozo ou adesão.

Uma Notícia espantosa de Salvação [3]

A questão, para mim, continua a ser esta: se isto da Ressurreição de Jesus é MESMO verdade, nada fica como dantes. Se alguém acredita que Deus foi capaz de derrotar a morte para ressuscitar um homem, aquele homem, Jesus de Nazaré, então, nada pode ficar como dantes!

Uma Notícia destas não é como as histórias de deuses que ouvia na minha infância na companhia do meu pai! Não é coisa de uma religião, ou um povo, ou uma cultura… É o anúncio de uma acção de Deus tão espantosa, tão fora de qualquer expectativa ou sombra de normalidade, que ultrapassa tudo o que já tinha ouvido. Esta Notícia não cabe em nenhum discurso religioso… explode com todos, obriga tudo a reformular-se! Se acreditamos que Deus ressuscitou aquele homem, é o próprio rumo da história que ganha um novo horizonte, é o sentido do que fazemos e os objectivos que nos norteiam que são todos postos por terra para que “Deus faça novas todas as coisas”!

Os primeiros, quando o experimentaram Presente, não nos transmitem essa experiência como uma explosão de alegria e satisfação, uma espécie de “alívio” pela maneira airosa como Deus afinal tinha resolvido as coisas e tinha dado um final feliz à história de Jesus. É muito mais do que isso. Não é um “final feliz” para a história de Jesus que nos põe um sorriso nos lábios e pronto. É o princípio de qualquer coisa espantosa, nova, nunca vista… a sensação de uma presença que ao mesmo tempo não é evidente mas é evidente que é ele!!!

“Ele não é evidente, mas é evidente que é ele”… Era um irmão dos mais velhos da comunidade de Roma que dizia isto muitas vezes, e afirmava tê-lo escutado da boca de João, irmão de Tiago, discípulos do Senhor.

Por fazerem a experiência da Ressurreição de Jesus desta maneira, aqueles que nos escreveram a Boa Notícia colocam nesta hora uma mistura muito grande de sentimentos, tudo ao mesmo tempo. A presença de Jesus criava ao mesmo tempo alegria, entusiasmo, medo, susto, dúvida, espanto… Tudo junto, como quem se sente diante de algo grandioso e que está apenas a começar. Não era o “fim perfeito” para a vida de Jesus mas o Princípio Inesperado e Espantoso que germinara do mais íntimo da sua morte, vencida pela acção poderosa de Deus na energia do Seu Espírito.

Quem falava destas coisas de maneira muito bonita era o Yonathan e outros irmãos que tinham nascido no judaísmo, porque para eles era mais claro que, ao proclamarem esta acção de Deus em Jesus estavam a afirmar que Deus tinha começado a fazer isso mesmo para todas as pessoas. Para dizerem “todas as pessoas” eles, na língua materna, dizem “toda a carne”, porque entendem que todos formamos um Corpo. Ao exaltar um membro deste Corpo, ao elevá-lo à Sua direita, é toda a Humanidade que é “puxada” nele e por causa dele, num movimento de exaltação que se inaugura nele. Por isso nós não nos cansamos, nas nossas vigílias, de cantar Jesus como Senhor, Princípio de uma Nova Criação, Primogénito de entre os mortos, Primeiro de uma multidão de irmãos, Cabeça de uma Nova Humanidade, Inaugurador da Salvação.

Na manhã do dia de Pentecostes há uns bons 100 anos, o Pedro proclamou esta Notícia de Salvação lá em Jerusalém, dizendo que Deus tinha ressuscitado Jesus, o tinha exaltado e lhe tinha dado a plenitude do Espírito Santo que, por ele, se derramou para todos…

Este é o dinamismo da Salvação a acontecer, o Espírito Santo que é a própria Vida de Deus, dada a Jesus que não sabe “fechar” em si ou guardar para si… Tudo nele é oblatividade, doação, abertura. Por isso Deus o exaltou à Sua direita… Por isso a Vida que com ele partilhou ao glorificá-lo se derrama, como o dom que um irmão recebe e partilha com todos os seus irmãos. Deus sabia o que fazia com o Seu Jesus… Deus conhecia-o com a minúcia amorosa com que um Pai conhece o Seu Filho muito amado…

Os judeus tinham começado a sua história pela descoberta encantada de um Deus Libertador, o Deus da Aliança que libertara do Egipto grupos de escravos para fazer deles um povo só. Depois, foram aprofundando sempre este mistério de um Deus presente na história do Seu povo, actuante, comprometido, caminhante também com eles, até chegarem à Fé num Deus Criador. Isto queria dizer que Ele era o Deus de toda a História, na origem de tudo e de todos e, por isso, toda a Humanidade tinha na origem um desígnio comum, a mesma acção, o mesmo projecto de Aliança e Salvação. Chegar à Fé em Deus como Criador representava um salto para a universalidade.

Mas a nossa história não corre como um Projecto saído das amorosas mãos de Deus… existe a ternura, a fidelidade e a compaixão, mas existe também a violência, a injustiça, a opressão, o abandono. O pecado marca ritmos de distorção do projecto de Deus, de desumanização da História. A partir desta experiência, os judeus começaram também a acreditar em Deus como Juiz. Mas não pensavam num juiz à maneira dos juízes romanos… Julgar, para eles, é sinónimo de Salvar, não de “avaliar e decidir” e muito menos “punir”.

Sobretudo em momentos de grande sofrimento, começaram a esperar um Dia do Juízo, um Dia Final, o fim do domínio do pecado, o Último Dia, a despedida da desumanidade. Estas eram expressões que o Yonathan usava espontaneamente quando falava destas coisas, e que deixavam sempre uma cara esquisita naqueles que não estavam habituados a escutá-lo. Como a mim, por exemplo, ao princípio…

Lembro-me que uma das primeiras vezes, mal tinha começado o catecumenado e conhecia-o há pouco tempo, pedi-lhe que me explicasse melhor, e ele fê-lo de uma maneira que não esqueci mais. Disse-me que a expressão “Deus Julgará toda a Criação” ou “acontecerá o Juízo Final de Deus” significava isto: Deus vai pôr tudo “às direitas”! Eu percebi e disse-lhe: “Como uma re-criação! Deus a recriar todas as coisas!” E ele exultou comigo: “Sim! É isso!”

“Deus vai pôr tudo às direitas”… Nesse dia voltei para casa com esta explicação do Yonathan no ouvido, e durante dias não me largou. Ainda hoje me faz parar um bocadinho para a saborear.

Uma Notícia espantosa de Salvação [4]

“Deus vai pôr tudo às direitas”… Nesse dia voltei para casa com esta explicação do Yonathan no ouvido, e durante dias não me largou. Ainda hoje me faz parar um bocadinho para a saborear.

Quando os primeiros começaram a anunciar a Ressurreição de Jesus, houve logo quem percebesse que era isto mesmo que estava em causa! O Juízo de Deus esperado, a acção recriadora e salvadora de Deus, tinha começado! Era isso que significava dizer que Deus tinha ressuscitado Jesus! Sim! Deus estava a começar a pôr tudo “às direitas”! O sinal era a ressurreição de Jesus, morto sob o domínio da injustiça e da mentira, com a força fatal do pecado, mas recuperado por Deus, exaltado com a energia do Espírito. Esse era o sinal de que o Juízo de Deus tinha começado… o Último Dia começou na ressurreição de Jesus, o Dia em que Deus proclama ao cosmos inteiro: “Não esperarei mais! Cumpriu-se o Tempo. Vou pôr tudo às direitas! Comece a recriação! Eis que Eu faço novas todas as coisas!”

E tudo começa em Jesus… é nele que começa esta Nova Criação aguardada, é nele que se inaugura o Juízo Salvador de Deus que o Yonathan me explicou como a decisão e acção de Deus a pôr tudo “às direitas”.

Isto sempre me pareceu enorme, desde a primeira vez que o ouvi… Tem a ver com a Humanidade inteira, não apenas com os que acreditam nisto. É por isso que esta Boa Notícia tem que ser anunciada e eu estou disposto a deixar-me levar pelo impulso do Espírito até à Hispânia onde a Salvação já acontece porque Jesus ressuscitado também é, no meio deles, Princípio de uma Nova Humanidade, o Filho Exaltado à direita do Pai que leva consigo uma multidão incontável de irmãos, a Cabeça de um Corpo que lhe segue o destino, por Graça, por Dom. Vou até lá, onde o Apóstolo Paulo não chegou a ir porque o mataram em Roma, para anunciar isto de alguma maneira, não faço ideia como! Mas é grande demais para que não se saiba. Diz respeito a todas as pessoas, e todas o deviam poder conhecer e celebrar como eu descobri aqui em Óstia e depois em Roma.

A Salvação não é uma decisão de Deus que esperemos para o futuro, depois de fechar as contas connosco e segundo a nossa vida mereça ou não mereça que Ele actue em nosso favor ou contra nós… Isso são conversas que não se fazem entre nós! A Salvação é um Dom, uma certeza já, porque fomos “selados com o Espírito para recebermos a garantia da Salvação”. É uma expressão que ouvi uma vez quando foi lida uma carta que o Paulo tinha mandado aos irmãos de Éfeso e, entretanto, nos chegou também a nós. E eu volto sempre ao mesmo… Se esta Notícia espantosa de Salvação é verdadeira, se acreditamos mesmo nisto, então nada pode ficar como dantes!

Significa que pelo acolhimento deste Anúncio nos podemos tornar colaboradores do Espírito de Deus na Obra da Nova Criação que se inaugurou na ressurreição de Jesus. Acreditamos que a plenitude da Salvação acontece para lá do que agora vemos, fazemos e esperamos, como uma música que o Crescente veio a cantarolar uma grande parte do caminho para cá, aprendida dos pais em pequenino, e cujo refrão é: “Novos Céus e Nova Terra / Senhor nosso Deus / Novos Céus e Nova Terra / como Tu prometeste / Novos Céus feitos de Terra / Nova Terra, feita de Céu”. Uma vez a Lídia disse uma coisa muito bonita que tinha gravada numa pequena placa de cobre que trazia sempre ao pescoço: “Quando ele aparecer, o veremos e nos tornaremos o que ele é”. Foi feito pelo pai dela para lhe oferecer quando ela foi baptizada.

Mas a Salvação que proclamamos e esperamos é uma Salvação Inaugurada já. Ainda não completa, ainda não definitiva, mas já Inaugurada e irrevogável, porque Deus é Fiel! Esta certeza muda a nossa maneira de viver, mergulha-nos mais profundamente no mistério da vida, na pertença a esta Humanidade que sofre as dores do parto para o Novo Nascimento que começou em Jesus e ainda não terminou… a nossa Fé diz respeito a todas as pessoas no mundo inteiro, não pode ficar fechada nos limites da nossa comunidade, não pode reduzir-se ao motivo da nossa reunião na vigília do primeiro dia da semana e também não pode ser atirada para o “céu” de Deus como se fosse uma coisa só para “depois” e agora não há nada que isso nos obrigue a fazer…

Se Jesus, o Ressuscitado, é o Messias como dizemos, se é o Ungido pelo Espírito como professamos, se é o Rosto Visível de Deus invisível como cantamos num dos nossos hinos, então significa que o Céu chegou até nós, Deus está connosco e o “depois” começa agora!

Uma Notícia espantosa de Salvação [5]

A Salvação que se inaugurou na ressurreição de Jesus torna-se uma maneira de viver diferente, a maneira de viver de gente salva! Por isso, o grande sinal desta Salvação que nós proclamamos são as nossas reuniões, sobretudo a hora em que nos sentamos à mesa para partilharmos o Pão da Vida e circularmos entre nós o Vinho da Salvação. Todos à mesa, à mesma mesa, ricos e pobres, romanos, gregos e judeus, velhos e novos, comerciantes, escravos, gente de todos os tipos…

O Apóstolo Paulo dizia muito isto, porque para ele era esse o grande sinal da verdade da Salvação que anunciava: “Se Cristo ressuscitou tudo foi recriado nele! E nele tudo se torna Um só, porque ele não é muitos. Na sua ressurreição são derrubados os muros de todas as inimizades, e não há mais homem ou mulher, escravo ou homem livre, judeu ou pagão, mas todos formam Um só no Cristo Jesus!”

O grande sinal da Salvação é este, o derrube de todos os muros da divisão, o enfrentamento de todas as formas de opressão e separação das pessoas. Vivendo desta maneira proclamamos a Verdade da Salvação como Nova Criação, como despontar entre nós dos Novos Céus e Nova Terra que esperamos de Deus, mas que Deus já está a dar! Dizer que “esperamos” não significa que é um dom para depois… significa, isso sim, que ainda não está acabado! O nosso destino é o destino de Jesus, um destino filial. Seguimos, por Graça, na senda dos passos daquele a quem proclamamos “o mais belo e Fiel dos filhos dos homens”, gerado pelo Espírito e glorificado como Filho de Deus!

Já somos Filhos de Deus! O Espírito que o Pai partilhou sem medidas nem reservas com o Filho que exaltou à Sua Direita foi derramado para nós, não ficou fechado nele, pois ele nada encerra ou mata em si mesmo. Igual a nós em tudo, excepto nisso… É esse Espírito do Pai e do Filho muito amado que segreda continuamente ao nosso espírito o selo da Aliança Nova que Deus estabeleceu connosco: “Abba! Abba!” Este é o selo, o segredo, o Dom: Deus é o Pai de Jesus, e nosso Pai pelo mesmo Espírito. A Vida que partilhou com ele chegou até nós pela sua mediação. Pela fidelidade incondicional ao Pai está aberto a acolher o seu Dom, e pela comunhão incondicional connosco está aberto a derramar em nós o que recebe do Pai.

Se isto é verdade… Se nós acreditamos mesmo nisto…

Nunca tinha ouvido falar em Salvação em nenhuma das crenças que conhecia aqui por Óstia durante a minha infância e juventude. Mas quando ouvi falar dela logo ao princípio, entre os meus irmãos, percebi muito bem que não era uma crença entre outras. Era uma Revelação espantosa, ao mesmo tempo clara e inexplicável, uma Notícia que tinha a ver com todas as pessoas e que deitava abaixo qualquer muro de divisão. “E o último inimigo a vencer era a morte”. Já não me lembro quando ouvi isto, mas é fortíssimo. Tenho ideia que foi o Paulo que o escreveu numa carta, já nem sei a qual comunidade.

Nos últimos dias que estive em Roma, antes de partir para aqui, chegaram-nos notícias da Pisídia. Houve por lá uma espécie de epidemia, qualquer coisa que se alastrou, como uma peste, e matou centenas de pessoas. A maior parte das pessoas fugiu de lá por medo do contágio, sobretudo as classes mais altas que têm mais facilidade em deslocar-se e amigos noutras zonas. Os nossos irmãos de lá, para espanto de toda a gente, ficaram! Mesmo aqueles que, entre eles, são mais ricos. Há mesmo dois dos nossos irmãos lá que são médicos. Todos ficaram! E não ficaram para prestarem auxílio uns aos outros, como irmãos na Fé. Ficaram para prestar auxílio a todos os que precisassem, como irmãos no Senhor que é o Salvador de todos! Muitos deles ficaram também doentes e morreram… e sentimos dentro de nós um misto de tristeza e exultação ao sabermos destas coisas. Naquela região todos estavam admirados com o que tinha acontecido e estão a ser muitos os que se aproximam das nossas comunidades para conhecerem essa Salvação no Cristo Jesus que os fez ficar quando todos fugiram.

A Salvação no Senhor Jesus não é a ideia de “vida após a morte” que os cristãos têm entre si. É a maneira de viver a vida e a morte de quem se sabe já conquistado pelo Amor Fiel de Jesus, atraído para a Vida de Deus que não está fora do mundo mas no mais íntimo da vida e da morte dos irmãos… Por isso eles ficaram. Tenho a certeza que, se novas epidemias surgirem lá ou noutros lugares, o mesmo acontecerá entre nós! Para sermos dignos de levar o nome que nos damos e celebrarmos a Salvação que anunciamos.

O Deus que faz acontecer os Novos Céus e a Nova Terra para nós é Aquele que quer também gerar dentro de nós a Delicadeza do Espírito e a Compaixão do Ressuscitado. É nessa Delicadeza que contraria a violência e a separação e nessa Compaixão que contraria a indiferença e a injustiça que aparece a visibilidade da Salvação que Deus nos dá.

Uma Notícia espantosa de Salvação [6]

Quando comecei o meu catecumenado, o Simão ensinou-nos a cantar um hino que tinha sido escrito pelo Apóstolo Paulo logo a abrir a carta que tinha escrito aos Efésios. Eu já não me lembro de tudo de cor direitinho, mas as ideias principais lembro-me bem delas, porque me tocou profundamente aperceber-me de como Deus agia em função de mim!

O Simão dizia-nos que Jesus Ressuscitado é o centro do Projecto Salvador de Deus, aquele para o qual toda a Criação aponta e aquele no qual a Recriação se inaugura. E eu pensava, sorrindo por dentro: se eu sou Corpo desse Ressuscitado, se lhe pertenço pelo vínculo do Espírito Santo, então eu mesmo estou no centro da História da Salvação, com ele, nele!

É esse hino de Paulo, que nós cantámos algumas vezes e provocou em mim esta experiência de predilecção, de ser amado de Deus, que eu partilho como me lembro:

Bendito seja Deus, o Pai de Jesus, o Cristo, nosso Senhor,
que NOS ABENÇOOU com toda a espécie de bênçãos do Espírito em Cristo.

Foi em Cristo que Ele NOS ESCOLHEU, ainda antes de começar o mundo,
para sermos consagrados e chegássemos à perfeição do Amor junto dele.
Ele NOS DESTINOU para sermos Seus Filho, adoptados por Jesus Cristo.
Tão bem Ele nos quis, por Sua iniciativa.
Nisto consiste o louvor a glória da Sua Graça com a qual Ele NOS AGRACIOOU no Amado.

É pela sua vida que temos a Redenção, o fim de todo o pecado,
segundo a riqueza da Sua Graça que Ele DERRAMOU ABUNDANTEMENTE sobre nós,
ENCHENDO-NOS de toda a sabedoria
e DANDO-NOS A CONHECER o mistério da Sua vontade,
conforme Ele já muito antes tinha escolhido fazer
e, assim, conduzir a história à sua plenitude: enCabeçar todas as coisas em Cristo,
as que estão nos céus e as que estão na terra!

Nele, DESTINADOS segundo a iniciativa daquele que tudo realiza
e segundo o desejo da Sua própria vontade
FOMOS FEITOS Sua herança,
a fim de nos tornarmos nós mesmos Seu louvor e glória,
nós os que já antes de vós esperávamos o Messias que Deus havia de nos dar.
Nele também vós, uma vez que escutastes a Palavra da Verdade,
a Boa Notícia da vossa Salvação, e acreditastes nela,
FOSTES SELADOS pelo Espírito da Promessa, o Espírito Santo,
que é a garantia da nossa herança e a certeza da redenção do povo novo
que Ele adquiriu para o Seu louvor e a Sua glória!


Era mais ou menos assim que o cantávamos. E é assim que o sinto ainda, como a proclamação de uma Graça que envolve a minha vida por todos os lados, e não apenas a minha mas a Criação inteira, e um desejo profundo de que eu sirva o Seu louvor e glória, isto é, que eu saiba bem-dizer a Sua Salvação e viver de maneira a que a minha vida seja uma homenagem ao Deus da Graça e ao Cristo irmão de todos!


Com amizade,
Rufus

Aquele Jesus da Galileia [1]

Desde que tinha ouvido às escondidas aquela carta do Inácio de Antioquia aos irmãos de Roma que, além de uma enorme curiosidade por saber quem era este homem, me movia uma curiosidade ainda maior de saber quem era o tal Jesus em nome do qual ele estava disposto a dar a vida cheio de alegria.

Quando fui com o Tito aquelas vezes à reunião da comunidade aqui em Óstia tudo isso se tornou mais forte, uma espécie de fome interior em conhecer Jesus. Depois do espanto que causava em mim a Salvação que proclamavam, depois do primeiro impacto em relação ao que diziam que Deus tinha realizado nele e através dele, lembro-me bem que surgiu dentro de mim a pergunta: “Mas porquê ele?! Quem era ele?!”

Desde a infância que eu tinha ouvido histórias de seres especiais, assim uma espécie de gente num mundo intermédio entre os deuses e os homens, que normalmente tinham poderes que os homens não tinham mas não chegavam a ser deuses como os outros, de quem, aliás, quase nunca gostavam exactamente por estarem abaixo deles. Já tinha ouvido muitas histórias assim… Mas, além de eu desde miúdo ter percebido que eram histórias só para passar um bom bocado à volta das conversas dos deuses, sobretudo com os marinheiros gregos que por aqui passavam, e, quando muito, para tirar uma ou duas lições morais daquelas baratas, o que mais me fazia ter a certeza de que isso nada a tinha a ver com Jesus era a maneira como ele morreu: julgado e condenado pelos poderosos do seu povo e executado pelo poder de Roma. Isto baralhava todas as possibilidades de escrever uma dessas histórias encantadas acerca dele…

Na viagem que fizemos para Roma com o Tito, fiz-lhe mil perguntas, até que ele mesmo me pediu para acalmar e esperar pelo caminho que iria fazer na comunidade conhecendo os Testemunhos dos Apóstolos. À medida que ia conhecendo quem era aquele Jesus da Galileia, uma região sem importância num pequeno distrito do meu Império de que eu só tinha ouvido falar meia dúzia de vezes na altura, mais tinha a certeza que a fome que sentia de o conhecer era uma coisa boa. Mais que uma vez, nos meus primeiros tempos em Roma, sonhei com ele e acordava com um misto de alegria por ter sonhado com ele e de tristeza por não o poder conhecer como os primeiros puderam…

Em Roma guardava-se como um tesouro precioso o testemunho daqueles que tinham conhecido Jesus antes da sua morte, que o tinham escutado alguma vez ou o tinham seguido como discípulos durante um tempo. E, de maneira especial, guardava-se o testemunho do Pedro, que tinha vivido os últimos meses entre os irmãos de Roma há cerca de sessenta anos.
Quando eu estava no catecumenado passou também os últimos tempos connosco o Marcos, de quem os pais do Crescente e alguns dos mais velhos ainda se lembravam muito bem. Ele era um jovem que tinha entrado na comunidade pouco tempo antes da chegada de Pedro e a quem foi pedido que tratasse de guardar por escrito o sentido do que ele ia contando. Entretanto, o Marcos tornou-se Apóstolo também e foi para a região oriente do Império.

Conheci-o quando ele voltou, já velho. Era um óptimo contador de histórias e tantos anos tinham-lhe dado uma maneira muito particular de o fazer. Conseguia juntar as memórias do Pedro com Jesus, o anúncio da sua Ressurreição e a sua própria experiência como Apóstolo em tantas comunidades numa história só, perfeitamente unida, ou numa parábola, ou numa narração simples. Era espantoso!

Como o conheci no início do catecumenado, algumas vezes não entendia bem o que ele dizia, ficava confuso, porque não percebia que ele conseguia meter essas três coisas dentro das palavras que dizia… foram os irmãos mais velhos, em especial o Simão, que me foram ajudando a perceber o seu jeito rico de comunicar.

Aquele Jesus da Galileia [2]

Desde os primeiros contactos com os irmãos eu tinha percebido que a Ressurreição de Jesus era anunciada como uma Boa Notícia de Salvação, uma proclamação fortíssima da acção de Deus a irromper na marcha da história para inaugurar a Plenitude dos Tempos, o Último Dia da Criação que é um Dia de Salvação. Mas, entrando na comunidade, lá em Roma, comecei a experimentar algo novo… a Ressurreição de Jesus não era apenas experimentada como um anúncio espantoso de Salvação, mas também como a certeza da Presença de Jesus connosco.

“Ele está connosco…” era uma frase mil vezes repetida dentro de mim. Se eu já tinha tomado contacto com a força do anúncio da Salvação em Jesus, foi sobretudo com o Marcos, dentro da minha comunidade, que experimentei este anúncio de Salvação como algo que se pode dizer demoradamente, como quem narra, como quem saboreia uma Presença, um Dom, um Diálogo…

O Marcos tinha esse jeito… a Ressurreição de Jesus, na sua boca, não acontecia como um grito pascal de Salvação mas como uma lenta narrativa da Presença do Ressuscitado entre nós, uma Presença que se saboreia pausadamente. Porque a Ressurreição de Jesus não representa a sua “fuga” para um mundo de Deus longínquo do nosso, mas antes a Plenitude da sua Presença entre nós. “Ir para o Pai” não significa ir para longe mas antes entrar definitivamente nas coordenadas do Espírito de Deus e viver nessa densidade de Presença que é ao mesmo tempo total e não evidente, para nós, porque transcende o horizonte dos sentidos.

Anunciar que Deus Ressuscitou Jesus de Nazaré, na Galileia, e que o constituiu Salvador e Senhor da História, implica perceber que a Salvação não é “anónima” porque o Salvador não é alguém “sem história”.

Lembro-me bem do dia em que tudo isto fez para mim mais sentido… Eu estava a dar os primeiros passos na comunidade e tinha-nos chegado o Testemunho dos Apóstolos de Jesus escrito na comunidade do Mateus. Eu nunca o conheci. Diziam que tinha sido um dos Doze do princípio, Levi, o cobrador de impostos. Durante a vigília do primeiro dia da semana, um irmão lia em voz alta e nós escutávamos, aclamando de vez em quando. Entretanto, leu um pedaço em que Jesus aparecia vindo do Céu como Juiz para julgar cordeiros para um lado e cabritos para o outro… Eu esperei. E como o Mateus era judeu, pedi ao Yonathan que falasse sobre isso. Isto foi antes ainda daquela conversa em que ele me falou da Ressurreição de Jesus e do Juízo Final como a acção salvadora de Deus a “pôr tudo às direitas”…

Explicou-me que Julgar é sinónimo de Salvar. Eu sou Romano… para mim o tribunal, a justiça e os juízes são outra coisa! Dar a cada um o que é devido, a absolvição ou o castigo. O Yonathan fez-me então uma pergunta que eu levei tempo a perceber… “Quem é o Juiz?” Parecia-me tão simples que não percebia… “Jesus?”, disse eu… “Sim! É Jesus esse Juiz de que fala o Mateus…”, confirmou ele.

“Pois”… eu continuava sem perceber onde ele queria chegar… então, perguntou-me: “Quando eles falam da experiência do Ressuscitado, como é que falam? Como testemunham isso?”

Eu lembrava-me: “Dizem que Viram o Senhor! Testemunham que o viram. Que ele se fez presente no meio deles.”

O Yonathan, cheio de paciência, continuou: “Sim, viram-no… estava com eles… mas, o que viram nele? Como o viram?”

Parei um pouco… sabia que sempre que falavam do Ressuscitado não apagavam dele a sua história. A marca desta história, os sinais visíveis, eram as feridas do Crucificado. E respondi ao Yonathan: “Viram sempre as suas feridas, as marcas da crucifixão.”

“Pois!”, disse ele… “Essas feridas são uma maneira muito forte de dizer que Deus não anulou a vida histórica de Jesus ao Ressuscitá-lo, não lha apagou. Essas feridas são uma maneira muito forte de dizer que Jesus mesmo, Ressuscitado já pelo Pai e Vitorioso sobre a própria morte, não se envergonha das suas chagas, não se envergonha das opções e dos gestos que lhe valeram aquela morte, nem se envergonha de pertencer ao lado dos derrotados e injustiçados da história humana. Por último, essas feridas são uma maneira muito forte de dizer que os discípulos de Jesus não anunciam um Ressuscitado imaginário, um “outro” Jesus que não aquele que a eles mesmos tantas vezes escandalizou e baralhou, mas “ele mesmo” com quem caminharam, percorreram a Palestina e as Escrituras, comeram e beberam e, no fim, abandonaram. É ele mesmo, não outro… o Ressuscitado é o Crucificado! O Vitorioso é o Condenado! O Filho é o Proscrito!”

O Yonathan ia continuar mas eu interrompi: “O Juiz é o Réu!” E depois de tantas palavras, ficaram estas, como um pêndulo dentro de mim…

Aquele Jesus que viria como Juiz, na linguagem do Mateus, não tinha nada a ver com as imagens de Juízes que eu tinha na cabeça… por isso é que não entendia. Todos os juízes pertencem a um mundo à parte do dos réus… Quem já se sentou no banco dos réus num tribunal de Roma nunca na vida pode aspirar a sentar-se na cadeira de Juiz!

Mas este Juiz que vem, o Ressuscitado, ao chegar e sentar-se na cadeira de Juiz, não é assim… o banco dos réus ainda está quente da sua presença e todos os réus da história o reconhecem. Quando ele levanta as mãos para mandar começar a sessão, ficam visíveis as suas feridas, fica visível aos olhos da Humanidade inteira de que lado é que ele está! Todos os feridos da história humana, todos os réus olham para ele e gritam de consolação: “Ele é dos nossos! O Juiz é dos nossos! Estamos salvos!”

Essas feridas são o sinal da sua história, a visibilidade das suas pertenças, das suas companhias, dos gestos, das palavras e das ousadias proféticas que lhe valeram a pena de morte.

Aquele Jesus da Galileia [3]

Tudo começou quando ele se juntou a João, um Profeta que baptizava as pessoas na margem de um rio como sinal de conversão. Essa conversão tinha um objectivo: preparar as pessoas para a Vinda do Reino de Deus que aconteceria pela chegada do Messias. Não só preparar as pessoas, mas criar as condições para que Deus pudesse como que “abreviar” o tempo. Ainda hoje, de vez em quando, cantamos entre nós um hino antigo já do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas…”

Havia, na altura, três correntes fortes nesta expectativa do Reino de Deus a chegar pela acção do Seu Ungido: os fariseus, os essénios e os sicários.

Os fariseus achavam que Deus enviaria o Seu Messias e inauguraria o triunfo do Seu Reino sobre todas as opressões dos pagãos quando o povo de Deus se tornasse fiel cumpridor da lei de Moisés. Eram muito rigorosos no cumprimento de todas as tradições e dos mais pequenos rituais… a pureza legal era para eles a “porta aberta” para a chegada de Deus e do Poder do Seu ungido.

Os essénios ainda levavam isto mais longe. Tinham construído uma espécie de mosteiro no meio do deserto onde viviam em permanente estudo da Lei, das escrituras e das tradições dos antigos. Faziam banhos rituais de purificação várias vezes por dia e consideravam-se eles os único puros. Quando chegasse o Esperado de Deus todos os outros teriam a morte como destino por causa da sua impureza, e eles haviam de reinar com o Rei dos Reis.

Os sicários, que uma vez me disseram que também se chamavam zelotas, eram outra coisa… tomavam a iniciativa de “ajudar” Deus a destruir o domínio dos pagãos sobre o Seu povo pegando em armas e lutando. Acreditavam que o Reino de Deus havia de impor-se com a força de Deus a agir na ponta das suas próprias espadas.

Jesus nunca acreditou em nenhum destes caminhos. Unindo-se a João, firmou-se na certeza de que o caminho da chegada de Deus coincidia com a redescoberta da Justiça, da Fraternidade, da renovação do Povo segundo a Vontade de Deus manifestada aos antepassados de Israel na caminhada libertadora através do deserto. Com João, na linha de todos os profetas do Seu povo, Jesus percebeu que o que Deus queria fazer com o Seu povo era um Novo Êxodo!

Depois de João ter sido preso por se ter metido com o rei da galileia, um Herodes Antipas que era filho de Herodes o Grande, conhecido aqui por Roma por ser um dos mais submissos lacaios do Imperador e um dos mais ferozes em todo o Império a tratar as gentes da sua raça e até da sua família, Jesus, em vez de voltar para a sua terra e dar tudo por acabado assumiu sobre si a missão da Profecia!

Começou a juntar outros a si, ao seu anúncio, alguns deles que já tinha conhecido junto de João. E tornou-se um profeta itinerante como muitas vezes tinha havido no seu povo. Anunciava o Reino de Deus como uma Presença de Deus que já estava a acontecer. Dizia que este Reino já estava Próximo, ao alcance de todos, e que era necessário revolver a vida de maneira a acolher esta Nova Presença do Reino.

Ao anunciar este Reino, Jesus foi-se dando conta do que Deus estava a realizar nele… Foi percebendo que era uma Força Nova que o animava e enchia as suas palavras, era o próprio Espírito de Deus que o envolvia e o consagrava para a missão de encabeçar a marcha do Reino de Deus entre os seus conterrâneos.

Da memória que nos ficou do Pedro, que andou com ele todos estes caminhos, guardo ainda expressões muito bonitas que se encheram já de significados e imagens diferentes… dizia ele que Jesus sentia muitas vezes, ao princípio da sua missão, como se o Céu se abrisse e a Vida de Deus se derramasse gratuitamente e cheia de abundância sobre todos… Sentia que era o próprio Espírito de Deus, como um Amor que o envolvia, a tomar conta dele, a cuidá-lo como um Pai muito querido cuida um Filho. E sentia mesmo isso dentro de si: “Tu és meu Filho… Tu és meu Filho… Eu amo-te tanto…”

Pedro testemunhava que todos viam isto, todos percebiam isto, ninguém que o conhecesse duvidava disto! Ele vivia assim mesmo, animado por esta experiência… tudo nele a dizia! Como um Filho muito amado… vivia com toda a Verdade que daí vem e agia com toda a Autoridade que essa experiência lhe dava.

Jesus não era um pregador de futuros cheios de desgraça como de vez em quando apareciam, gente que falava com grande certeza do que ainda ninguém podia confirmar… Jesus também não era um Sábio como aqueles de quem eu ouvira falar tantas vezes de diversos lugares aqui no porto de Óstia, entre copos e histórias, daqueles que diziam máximas universais e contavam fabulas muito edificantes que lhes valiam a admiração de todos…

Jesus não foi um sábio religioso que passou entre os seus proclamando daquelas “verdades eternas” de uma maneira pomposa e eficaz. Ele não era um homem que pregava aquilo que todos iam sabendo, mas o fazia de um jeito novo, mais belo ou elevado. O seu anúncio não era um entretecido de verdades sublimes e intemporais, e os seus diálogos não eram um suceder de bons conselhos… ele anunciava uma Notícia! Uma Boa Notícia! E uma Notícia, ao contrário das verdades intemporais ou dos bons conselhos, é a proclamação de algo que está a ACONTECER! Esse era o anúncio de Jesus, a sua novidade, a sua força, a sua ousadia! Proclamava a Boa Notícia do Reino, ou seja, que ele estava a ACONTECER!

O Marcos não deixou de o escrever no seu testemunho - claro - que quando Jesus anunciava a presença de Deus dizendo: “O Reino de Deus chegou!” logo a seguir dizia do que se tratava: “Acreditai na Boa Notícia!” É uma Notícia… não é uma verdade intemporal como o são todas as conversas religiosas que eu já tinha conhecido muito antes de me falarem de Jesus, é uma Notícia, a proclamação ousada de um Acontecimento!

Se Jesus o fazia é porque a sua experiência de relação com Deus era mesmo como todos a sentiam… como um Filho conhece o Pai e o dá a conhecer. Como um Pai ama o Filho e se dá a conhecer nele. O sinal que Jesus dá da verdade deste Anúncio do Reino de Deus é a sua própria Vida. A prova que estava a acontecer o Reino era a sua própria maneira de se dirigir às pessoas, a maneira de se relacionar com elas, a maneira como ultrapassava todos os limites da Lei e todos os preconceitos da Tradição para fazer emergir a dignidade e a liberdade dos mais pequenos do seu povo segundo o Coração de Deus. Era o Novo Êxodo em marcha… e Jesus era o novo Moisés.

Havia muitas escravidões a serem vencidas, muitos “impérios do mal” a serem derrotados, muitas opressões a serem rasgadas pelo braço direito de Deus. Um dia esse braço direito de Deus tinha aberto o Mar Vermelho. Agora, o braço direito de Deus rasgava caminho pelo meio de novos domínios e poderes para encontrar os membros mais escravizados do Seu Povo e os conduzir à experiência plena da Liberdade e da Paz. O braço direito de Deus é Jesus de Nazaré.

Aquele Jesus da Galileia [4]

Era um homem de uma Verdade intocável, uma Verdade animada pelo Espírito de Deus e alimentada na sua fidelidade incondicional aos seus apelos. Isso dava-lhe uma Autoridade que fazia tremer todos os espíritos impuros e todos os demónios, fossem os que habitavam o mais íntimo das pessoas que o escutavam, fossem os outros, os que se sentavam nos lugares do poder do seu tempo.

As pessoas sentiam-se tocadas à sua passagem, enfrentadas por esta Autoridade enorme que não lhe vinha dos homens, e correm histórias de muitas que se sentiram profundamente curadas e recriadas pelo encontro com ele. Há muitos testemunhos de pessoas que sentiram até transformações no seu corpo e na sua maneira de viver por causa de o terem conhecido!

Amava intimamente esta vida e a sua terra, sentia-se um só com as suas gentes, e o seu Amor pelo Pai só fazia crescer esse Amor cada vez mais. Conhecia o encanto do mar e a serenidade das colinas quando o sol ainda não tinha acabado de nascer, e sabia colocar toda essa beleza da terra e da vida nas parábolas que contava do Deus Presente entre o Seu Povo. Nas suas parábolas virava sempre tudo do avesso, os últimos eram sempre os primeiros e os primeiros eram sempre os últimos, os ricos e poderosos caíam no anonimato e os empobrecidos e injustiçados eram chamados pelo próprio Nome para se acomodarem à Mesa do Banquete do Rei ou descansarem no colo de Abraão…

Anunciava o Reino de Deus como um Banquete que Deus preparava para todas as nações, como já o profeta Isaías antes dele tinha dito, mas arranjava mil maneiras de se sentar à Mesa com pessoas concretas, daquelas que, não sendo de outras nações, pertenciam às castas ou grupos com as quais nenhum fariseu se sentaria à mesa, e mesmo a maior parte dos seus discípulos pensaria três vezes e acabaria por responder que não… O velho Marcos ainda hoje acha graça a isto. Lembro-me da sua meia dúzia de dentes quando ele se ria ao contar muitas histórias destas em que “os seus discípulos não percebiam nada”… Dizia isto muitas vezes, e ria-se, até ao fim da sua vida.

O Reino de Deus, para Jesus, não era um “mundo espiritual” como às vezes eu tinha ouvido falar do “céu” aqui em Óstia, enquanto miúdo. O Reino de Deus era a acção de Deus a acontecer já aqui entre nós, o Projecto de Deus para toda a Humanidade, o Sentido da História. Uma vez, os primeiros pediram-lhe que os ensinasse a rezar, certamente encantados com o seu jeito de viver íntimo do Pai, e ele ensinou-os a fiar-se de Deus como filhos se fiam de um Pai muito bom e, depois, a pedir-lhe que a Sua Santidade, a Sua Vontade e o Seu Reino acontecessem “aqui na terra como no Céu”. Não “no Céu”, simplesmente, mas “aqui na terra”… Ainda hoje nós pedimos isto ao Deus de Jesus, Pai dele e Pai nosso, e sempre que o fazemos recordamos que a Salvação de Deus tem a ver com o AQUI e o HOJE que cada um vive.

Mas falar do Céu é sempre mais confortável que falar da acção de Deus que quer instaurar o Seu Reino entre nós… Começou a ser perseguido e apertado até que o conseguiram apanhar. Os seus discípulos não lhe valeram também, porque eles caíram igualmente na confusão de esperar dele uma resposta violenta. Estavam convencidos que ele era mesmo o Messias, que era o Espírito de Deus que o movia, e não conseguiam prever um fim não-triunfalista para alguém a quem Deus tinha Ungido tão fortemente com a Sua Presença.

Sei que o Marcos nunca se riu quando falava destas coisas… destas, não. Amava Jesus como só um Apóstolo pode amar, e amava também o Pedro e alguns outros dos primeiros que conheceu como só um amigo sabe amar. Quando anunciamos entre nós a Presença de Jesus, lembramo-nos sempre destes testemunhos. Porque é ASSIM que ele está connosco! A Ressurreição transfigurou-o, mas não o “mudou”. Glorificou-o, não o tornou “outro”. Confirmou e Exaltou a sua missão, não lhe foi dada “outra” diferente.

Pela experiência pascal proclamamos a certeza de que ele está connosco, no meio de nós, mas é pela memória da sua passagem pela Galileia que nós percebemos COMO é que ele está connosco, qual é o jeito da sua Presença. Ele é o Vitorioso sobre a morte, mas continua a não ser um Messias Triunfalista! Por isso guarda o sinal das feridas na sua vida ressuscitada pelo Pai. Ele que passou entre nós “não para ser servido mas para servir”, como nos foi contado que ele disse, não trocou de lugar na sua ressurreição! Ele que não quis o poder dado pelos senhores deste mundo não se comporta agora como se fosse o maior deles todos! Ele que não se deixou vergar pela manha dos fariseus e dos doutores da Lei não ficou de repente amigo deles a ponto de exigir aos seus discípulos que se comportassem como essa gente!

Ficou famosa entre nós a última coisa que disse o Marcos antes de morrer. Irmãos nossos estavam com ele nos últimos momentos, e ele agarrando com força a mão de um deles disse-lhe apenas: “Não deixem morrer a memória dele! A memória dele… Não deixem morrer a memória dele…” Foi repetindo isto até que se fez silêncio, como uma vela que se apaga serena.

Todos percebemos bem que o que estava em causa não era guardar uma espécie de “lembrança” de alguém… o que estava em causa para o marcos era que nunca se perdesse o horizonte da memória deste Jesus da Galileia, de maneira a que o Ressuscitado fosse sempre, em todos os lugares, descoberto como os primeiros o descobriram: “É ELE!” É ele… não outro qualquer! Jesus, o de Nazaré.

“Não deixem morrer a memória dele…”

Aquele Jesus da Galileia [5]

Queridos irmãos de Óstia, minha cidade, já estive nestes dias várias vezes convosco falando-vos dele, tal como me foi transmitido na minha comunidade que, bem sabeis, recebeu tantos que conheceram o Senhor como nós nos conhecemos uns aos outros. De várias maneiras vos transmiti o que recebi das suas palavras, dos seus gestos, das suas parábolas, das suas denúncias, de maneira que bem podeis fazer uma ideia de quem é ESTE Ressuscitado em quem professamos a nossa Fé como Salvador e Senhor de toda a Humanidade.

Apercebi-me que muitas vezes esta Memória do Senhor não estava presente nas vossas reuniões… por isso vos quis falar, para que seja sempre ESTE o Senhor da Glória a quem entoais os vossos hinos, o Nazareno escutado como Profeta, Seguido como Messias, Condenado como Blasfemo e Ressuscitado como Filho de Deus. Para que seja ESTE, e não outro.

Conheço os vossos corações, sei que sois da Verdade. Por isso não deixareis passar em vão tudo o que vos transmiti, e assim resumidamente mais uma vez o escrevi para que não vos esqueçais, para que o possais ler de vez em quando entre vós e reavivar a busca apaixonada daquele Amor primeiro que a todos nos fez arder o Coração quando aderimos a este Caminho e nos abrimos à Graça.

Estou também a terminar uma cópia do Testemunho dos Apóstolos da Boa Notícia de Jesus escrita pelo Marcos que deixarei nas mãos dos vossos anciãos para que vos sirva de alimento. Nas suas palavras, proclamadas na vossa assembleia, podereis ter o sabor daqueles serões que passávamos com ele, em Roma, escutando-o lentamente, como quem narra com todo o sabor as inúmeras cores que os raios de sol formam quando atravessam as gotas da chuva ou o fio de uma corrente de água… Assim é a Presença de Jesus, o Ressuscitado, entre nós.

Conta-se que os nossos primeiros companheiros na Fé, depois de deixarem de ter o Senhor consigo como tinham antes, passaram uns dias em que permaneceram muito quietos e desligados de tudo… como que fixos com os olhos no Céu. Então, o próprio Senhor lhes falou, forte como tantas vezes tinha feito com eles, para lhes perguntar isto: “Homens da Galileia, porque estais aí a olhar para o céu?!”

Aquele que nos ensinou a pedir ao Pai que a Sua Vida, o Seu Reino e a Sua Vontade estivessem presentes “aqui na terra como no Céu” é o mesmo que, certamente, está presente connosco “aqui na terra como no Céu”. É preciso voltar sempre à Galileia…

Lembro-me da primeira vez que o Marcos disse isto, porque eu imediatamente me pus a pensar como é que faríamos todos juntos uma viagem tão grande e a quem é que deixaria entregue as encomendas de lonas e peles que eu já tinha feito. Podeis-vos rir à vontade… Eles também se riram na altura quando lhes contei no que pensava.

Marcos contava que o Ressuscitado tinha dito aos seus discípulos para eles regressarem à Galileia, e enquanto ele falava é que eu percebi a importância de conhecer quem era aquele homem, aquele Galileu que Deus Suscitou entre nós como um Presente Seu, como um Dom, como um Filho gerado pelo Espírito para nós. Conhecê-lo bem, no seu jeito de fazer todas as coisas, nas escolhas que assumiu, na Notícia que anunciou, nos gestos com que lhe deu crédito e na Esperança que o fez agarrar-se à Fidelidade até ao fim e entregar a sua Vida de maneira incondicional, vencendo na sua carne a força da injustiça e da desumanidade. No último fôlego deixou ainda cair dos seus lábios o testamento do Perdão para todos, até para os que o mataram… assim venceu a morte na sua morte e caiu nas mãos do Pai.

Este é o Jesus da Galileia que Deus ressuscitou para nós como Salvador! O amigo de cobradores de impostos, prostitutas e pecadores públicos, o violador da Lei e do Sábado, o insurrecto do Templo e conviva de mesa de toda a casta de impuros. O anunciador das Bem Aventuranças e seu rosto mais perfeito, o Profeta da Palavra que cura e liberta, o Mestre que toca e recria, o Messias que proclama e revela a presença do Reino de Deus e o início de um Novo Êxodo, um Novo Povo e uma Nova Aliança.

“Foi ESTE Jesus que Deus ressuscitou, e nós somos testemunhas destas coisas!” Era isto o que o Pedro dizia muitas vezes em Jerusalém, nos primeiros tempos da Notícia Pascal entre nós… Durante o meu catecumenado aprendi dentro de mim a exultar com isso também! Acredito que em vós essa alegria também existe…

“Foi ESTE Jesus que Deus ressuscitou”… ESTE, que nos encanta…
“E nós somos testemunhas destas coisas!”
É em nome disto que espero aqui o barco para a Hispânia…
“Somos testemunhas destas coisas”…

Ser testemunha da acção que Deus realiza neste homem, Jesus de Nazaré…

Ser testemunha...

da acção...

que Deus realiza...

nele!

Que o Espírito de Deus venha sobre mim e a Sua Palavra me ilumine para que eu possa vir a perceber o que isto significa na minha vida. Rezo por vós, para que a Memória do Senhor não desapareça da vossa Fé. Rezai também por mim para que sinta que formamos um só Corpo nesta viagem que me espera, e a vossa Comunhão se torne minha Força e Alegria.


Com Amizade
Rufus

Preparava-se o meu Novo Nascimento [1]

A última etapa do Catecumenado foi em muitas coisas parecida a esta experiência que estou agora a fazer durante estes dias que espero antes de embarcar. Um tempo de parar, de fazer a memória agradecida da história que o Deus de Jesus tem vindo a fazer comigo, uma oportunidade extraordinária para saborear tudo de maneira nova, voltar ao Amor Primeiro com que sempre nos lançamos a estas coisas e assumi-las cada vez mais profundamente como minhas!

Sei que não preciso de vos dizer o que aconteceu no Tempo da Eleição que vivi no fim do Catecumenado nem o que significa, mas vi estes dias que há entre vós Catecúmenos. É para eles, sobretudo, que deixo o meu testemunho, para que possam saborear também o gosto da Presença do Espírito Consolador e Defensor nas suas vidas, o Espírito da Verdade, como lhe chamava Jesus, e envolvidos na Sua nova Sabedoria e Fortaleza aceitem deixar-se Mergulhar no Mistério da Páscoa de Jesus, morrendo e ressuscitando com ele.

Antes da Noite Grande da Vigília Pascal em que aconteceria o meu Baptismo, vivi um tempo de quarenta dias cheio de preparativos e sinais, como quem prepara um Novo Nascimento. Chamamos-lhe o Tempo da Eleição, quando deixamos de ser Catecúmenos e passamos a ser Eleitos. Aprendemos das Escrituras que o número quarenta é um símbolo de preparação, um símbolo da acção de Deus a realizar algo Novo que ainda não se vê claramente mas já se insinua… Como o povo de Israel no caminho da Libertação, Moisés no cimo do Monte a receber a Instrução de Deus para os seus irmãos, o profeta Elias à espera de Deus à entrada da gruta ou Jesus na experiência de deserto antes de começar a sua missão.

Assim nós, enquanto Eleitos, vivemos estes quarenta dias como quem se abre à acção silenciosa de Deus que nos prepara para nos fazer Nascer de Novo, da Água e do Espírito que jorram abundante e continuamente para nós da Vida do Ressuscitado.

No dia marcado, reunimo-nos os catecúmenos que seríamos Baptizados nesse ano, fomos acolhidos por toda a Comunidade e saudados pessoalmente por Xystus, o bispo das comunidades de Roma. Depois dos cantos e dos hinos e de uma longa acção de graças do bispo Xystus pelo dom dos Eleitos para a Comunidade dos Irmãos, ele começou a tocar-nos, um por um, nos ouvidos, nos lábios, nos olhos e na fronte, enquanto dizia: “Effatha!”

Dizia esta palavra, apenas… e ela tinha um eco fortíssimo dentro de mim, porque me lembrava ainda de como o mesmo sinal me tinha sido feito no início do meu catecumenado, quando eu não sabia ainda o que significava. Foi o Simão, nesse dia, que nos falou da força com que o próprio Jesus a usava quando se dirigia às pessoas a quem tocava: “Effatha!” Significa “Abre-te!”, na sua língua materna. “Abre-te!”

Assim tinha começado o meu catecumenado, e assim voltava a começar mais um tempo novo, o dos últimos preparativos para o meu Novo Nascimento.

Preparava-se o meu Novo Nascimento [2]

Depois de tocar os meus ouvidos, os meus lábios, os meus olhos e a minha fronte com a sua mão e com o “Effatha!” de Jesus, o bispo Xystus soprou com muita suavidade no meu rosto. De olhos fechados, senti dentro de mim que era Deus mesmo, o Pai de Jesus, quem soprava o Seu Espírito sobre a minha vida para me envolver na Sua ternura. Era o sinal de uma Nova Criação que eu estava chamado a acolher da parte de Deus, com o sinal daquele sopro primordial do Deus Criador ao barro moldado nas Suas próprias mãos.

Assim falam as Escrituras antigas do Ser Humano, como obra de arte moldada pelo cuidado e pela beleza das mãos de um Deus Bom e como ser vivente da Sua própria vida, transmitida numa inclinação profunda, num amor que se debruça e se aproxima até nos tocar com o Seu rosto, até nos tocar com os Seus lábios e nos fazer respirar do Seu próprio respirar. De olhos fechados, ainda, continuei a saborear esta Nova Criação que Deus estava a começar comigo e vi Jesus, tal como os irmãos mais antigos me tinham falado dele, quando numa das primeiras manhãs de ressurreição ele apareceu aos seus discípulos e soprou sobre eles dizendo: “Recebei o Espírito Santo”…

Pelo Dom do Espírito Santo, derramado nos nossos corações e presente a toda a Criação desde a Ressurreição de Jesus, inaugurou-se a Nova Criação. O sopro primordial desta Nova Criação é dado pelo Ressuscitado e se na primeira Criação Deus nos constituiu Sua imagem e semelhança, na Nova Criação faz de nós Seus filhos!

Abri de novo os olhos quando toda a Comunidade começou a entoar um Hino ao Deus de Jesus, nosso Salvador, em quem toda a Humanidade se renova e a própria Criação começa um tempo novo.

Mas o maior sinal desta Nova Criação a entrar na minha Vida, deste Novo Nascimento que em mim começava, ainda estava por acontecer. Sabendo os meus irmãos como é que a minha história tinha começado, desde aquele dia com quinze anos escutando às escondidas a carta do bispo Inácio de Antioquia, quiseram surpreender-me com o nome que me deram. Era costume entre nós, quando alguém se juntava ao grupo dos Eleitos, receber um Nome Novo. É desde esse dia que eu me chamo Rufus. Foi este o Nome Novo que os meus irmãos me quiseram dar e eu aceitei com tanta alegria.

Rufus era um dos filhos de Simão, de Cirene na Líbia. Vários dos mais antigos o conheceram, e o Marcos fala dele e dos dois filhos no Testemunho que nos deixou. Simão era um judeu que estava em Jerusalém para celebrar a Páscoa no ano em que Jesus foi preso e morto. Na manhã em que isso aconteceu, os soldados que levavam os condenados acharam que Jesus já não chegaria ao lugar onde o costumavam fazer porque não conseguia levar a cruz. Então, Simão que estava lá no meio da multidão foi agarrado pelos soldados e obrigado a carregar a cruz de Jesus em vez dele. Ninguém sabe o que se passou… como se olharam, se se falaram entretanto… ninguém sabe… Sabemos que Simão ficou até ao fim, ao longe, a olhar para ele. E, passados alguns dias em que aquela experiência lhe tinha dado a volta ao corpo mais de mil vezes, decidiu ir procurar os amigos daquele condenado para saber que era ele afinal. Quando os encontrou deu de caras com uma notícia espantosa: eles diziam que Jesus estava vivo, que Deus tinha tomado partido por ele e o tinha constituído Messias e Senhor com o Poder do Espírito Santo.

Ninguém sabe muito bem como é que as coisas se passaram depois, mas Simão permaneceu com eles e acabou por morrer em Jerusalém, muitos anos depois, no meio da comunidade, como um discípulo de Jesus acarinhado por todos. Nunca esqueceu aquela manhã em que era apenas um peregrino judeu em mais uma Páscoa e de repente se viu a carregar uma cruz de alguém que nem conhecia…

Entretanto, já o Rufus, que era o filho mais novo, tinha ido com o Apóstolo Paulo daquela vez em que ele se reuniu com os anciãos de Jerusalém e com os que tinham sido Apóstolos antes dele por causa das disputas entre os que afirmavam que para ser baptizado no nome de Jesus era preciso primeiro ser circuncidado, tornar-se obediente à lei e às tradições judaicas, e os que afirmavam que o Messias nos tinha liberto dessas prescrições, que a circuncisão que conta não é carnal mas consiste na Fé e que a nossa Lei é o Espírito a agir no coração dos crentes e na comunhão fraterna. Paulo foi a Jerusalém resolver estes assuntos e levou consigo Barnabé e outros companheiros.

No fim, tendo sido aceite por todos que a Fé estava acima da circuncisão e o Espírito Santo estava acima da Lei e tendo sido escrita uma carta para circular em todas as comunidades dos pagãos como uma Boa Notícia de Acolhimento, Paulo, Barnabé e os companheiros regressaram. Rufus foi com eles. Andou com Paulo longo tempo, depois foi companheiro do Tito, um colaborador íntimo do Paulo e, por fim, ficou na comunidade de Antioquia. Aí se tornou o melhor amigo de Inácio, que viria a ser bispo das comunidades dessa região. Era o seu braço direito.

Quando foram prender Inácio para o levar a Roma, levaram também preso o Rufus, o Sósimus e outros de quem alguns entre nós, em Roma, ainda se lembram bem. Morreram na mesma manhã, na mesma arena, há vinte anos. Foi o seu nome que me quiseram dar, o do amigo de Inácio de Antioquia, por conhecerem bem a minha história…

Chamo-me Rufus. E este Nome para mim é um Dom que me foi entregue, um testamento que guardo no mais íntimo da minha vida, um tesouro que recebi e devo pôr a render. Este Nome que me deram liga-me, na memória dos irmãos mais velhos que o escolheram para mim, a Simão o Cireneu, a Paulo, a Tito, a Inácio… sinto-me ligado a um testemunho de fidelidade que me precede, e isso enche-me de confiança.

Depois de me contarem a história do meu Nome Novo, o bispo Xystus chamou-me com voz forte: “Rufus!” E eu respondi: “Estou aqui. Sou eu.” Nunca esquecerei esse momento.

O meu Nome Novo foi então escrito no Livro dos Eleitos que havia na nossa comunidade e depois sentámo-nos para escutar o Testemunho dos Apóstolos, aclamar a Palavra de Deus e rezar uns pelos outros. Foi uma longa noite, essa…